segunda-feira, 22 de outubro de 2012

15 dias

Depois de exatas duas semanas de sobriedade,  Lia se desafia descaradamente, única e exclusivamente só para se testar: Esquece todo aquele "medo" dos últimos dias, de só permanecer na segurança do próprio quarto e resolve sair com alguns amigos [dos quais, todos, tinham muito apego ao álcool e a todos os recreativos possíveis] muito segura que não, não precisa beber e não só não precisa, como não vai. 
"1 pra mim, 0 pra eles"!
Ela pensa com toda crebilidade e segurança em si mesma. 

Fica perplexa ao se deparar [e se controlar] durante mais de quatro horas com cervejas na sua frente, uma atrás da outra, vindo absolutamente geladas, e ela permanece ali, estática, falante, talvez menos que nas demais vezes, afinal nos últimos dez anos, toda vez que ia para a noite, não se conhecia de outra maneira, a não ser alterada. Permaneceu ali, simpática como sempre, espontânea e tranquila [até certo ponto]. Sem dar-se conta, roeu todas as unhas, durante as quatro horas seguidas, mas permaneceu intacta, só com três latas de guaraná diet e uma garrafa de água com gás: Ela pensa novamente: "4 pra mim, 0 pra eles". A quantidade de cigarros que fuma, é exatamente igual, como se estivesse bebendo álcool. 

Pela primeira vez em tempos, Lia conseguiu estar no meio do álcool, sem beber [ansiosa, porém confiante, dizendo à si mesma: "5 x 0 pra mim"]. Conseguiu estar no meio de gente bêbada e assuntos desconexos, sem surtar, sem precisar estar naquela mesma vibe caótica. 

Pela primeira vez, Lia enxerga de fora, sóbria e inteira, a transformação interna e externa, física e psicológica, de um bêbado: a dicção, o jeito, os gestos, o cheiro, as conversas, tudo! E, definitivamente, não pretende voltar a ser assim novamente.
"7 pra mim, 0 pra eles". Repete alto em pensamento em frente ao espelho, olhando-se fundo nos próprios olhos, quando vai sozinha ao banheiro. A confiança aumenta cada vez mais e ela está quase eufórica, porém cansada, afinal, aguentar bêbados estando sóbria, definitivamente não é tarefa pra qualquer um! 

Fora o álcool, esteve em contato com pó na sua frente também. Duas buxas gordas, brancas, purinhas [a legítima "essa é da boa", se fosse há pelo menos um mês atrás], sendo abertas e cheiradas pelos amigos, literalmente, em frente ao seu próprio nariz! 
Naquele momento, voa um turbilhão de coisas pela sua cabeça, Lia pôde pensar mais racionalmente do que nunca, e acima de tudo, em sã consciência [essa altura do campeonato, ela já se sentia no topo: "10 pra mim 0 pra eles]: 

Mas que merda de vida é essa, porra?!?!?!

Depois de reparar nos outros, em torno de três litros de cerveja por pessoa [Lia que  sempre bebeu até mais do que isso, em torno de uns cinco litros por noite ou mais], que desencadearam uma vontade avassaladora de dar um teco, ela olha pra trás e pensa: 

"Não, eu não quero isso pra mim!" Fica tão fascinada , eufórica e ao mesmo tempo enjoada, com tanta informação nova, que assim que chega em casa [sóbria e não caindo pelos cantos como sempre foi do seu feitio, ao longo de anos], escreve no improviso em um pequeno caderno de anotações, onde anota dia após dia, suas vitórias e dificuldades:

"A anestesia alheia é visível, as pessoas precisam desesperadamente se alienar p/ o mundo, ficarem cegas pra vida, pelo menos que por um instante... aquele momento ali, com a ajuda do pó e do álcool, quando é possivel esquecer de tudo, quase que magicamente, e depois é claro, sofrer com a recompensa terrível, da ressaca do dia seguinte, a depressão pós pó, e sem contar, as enormes oscilações emocionais violentas que o álcool por si só provoca. Com o plus da cruza com o pó, a montanha-russa é mais intensa ainda... todo "bom viciado", adora testar os próprios limites, adora experimentar toda droga e ressaca do mundo, mas ironicamente, morre de medo de experimentar tentar mudar."  

E assim segue Lia hoje, com exatos 15 dias de sobriedade, sem ter ainda os "tais resultados supostamente incríveis [que ex adictos tanto enchem a boca pra falar] que a vida traz, após parar com o álcool", porém cheia de orgulho em si mesma, por saber que sim, ela pode ser mais forte que o álcool e sim, passar por cima dele. 
Basta ter um propósito e determinação. E isso, Lia tem de sobra.

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