Karina andava numa fase caótica e perturbadora, humor oscilante, pouco dinheiro, desânimo profundo e um apego mais do que o normal pelo álcool.
Há algum tempo já não fotografava, o que resultava em uma conta bancária quase vazia. Karina apesar do grande talento na fotografia, havia um certo tempo que deixara tudo "no ar". Acordava tarde, vivia de ressaca, saía todas as noites, enchia a cara e, quando permanecia em casa, nutria o seu outro vício avassalador; pela internet. Estava a pouco tempo mantendo um romance destemperado e monótono com Flavio, sem grandes promessas de ir pra frente, igualmente como toda sua vida de uns anos pra cá.
Flavio era um homem alto, cabelos grisalhos, barba por fazer e olhos cor de avelã, que levavam consigo um triste olhar perdido. Como a maioria dos pseudo-artistas, Flavio era um músico sem grandes talentos, ex viciado curado das drogas, que deu início ao projeto de um livro - jamais terminado - em busca do auto-conhecimento. Com quase 40 anos, divorciado e sem filhos, ainda morava de favor, com Cássio, seu irmão mais velho, junto com a esposa e seus dois filhos pequenos, o que incomodava profundamente Karina, que aos 26 anos, desde os 18, saiu de casa, para morar em um imóvel da família, herdado de uma tia avó.
Tudo na vida de Karina sempre foi a relativa difícil vida fácil. A legítima filhinha da mamãe que resolveu se rebelar por conta dos altos e baixos da própria vida, e das eternas regalias que sempre teve, no papel de filha única, desde o instante em que nasceu.
Sempre à procura de novas aventuras, novas drogas, novas substâncias, novas pessoas e novas frustrações, lá se encontrava Karina, agora com um novo amigo virtual. Era sua nova distração momentânea p/ os dias nublados que passavam, sem grandes novidades, sem grandes mudanças.
Pietro. O novo nome para os dias seguintes... [to be continued]
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
15 dias
Depois de exatas duas semanas de sobriedade, Lia se desafia descaradamente, única e exclusivamente só para se testar: Esquece todo aquele "medo" dos últimos dias, de só permanecer na segurança do próprio quarto e resolve sair com alguns amigos [dos quais, todos, tinham muito apego ao álcool e a todos os recreativos possíveis] muito segura que não, não precisa beber e não só não precisa, como não vai.
"1 pra mim, 0 pra eles"!
Ela pensa com toda crebilidade e segurança em si mesma.
Mas que merda de vida é essa, porra?!?!?!
"1 pra mim, 0 pra eles"!
Ela pensa com toda crebilidade e segurança em si mesma.
Fica perplexa ao se deparar [e se controlar] durante mais de quatro horas com cervejas na sua frente, uma atrás da outra, vindo absolutamente geladas, e ela permanece ali, estática, falante, talvez menos que nas demais vezes, afinal nos últimos dez anos, toda vez que ia para a noite, não se conhecia de outra maneira, a não ser alterada. Permaneceu ali, simpática como sempre, espontânea e tranquila [até certo ponto]. Sem dar-se conta, roeu todas as unhas, durante as quatro horas seguidas, mas permaneceu intacta, só com três latas de guaraná diet e uma garrafa de água com gás: Ela pensa novamente: "4 pra mim, 0 pra eles". A quantidade de cigarros que fuma, é exatamente igual, como se estivesse bebendo álcool.
Pela primeira vez em tempos, Lia conseguiu estar no meio do álcool, sem beber [ansiosa, porém confiante, dizendo à si mesma: "5 x 0 pra mim"]. Conseguiu estar no meio de gente bêbada e assuntos desconexos, sem surtar, sem precisar estar naquela mesma vibe caótica.
Pela primeira vez, Lia enxerga de fora, sóbria e inteira, a transformação interna e externa, física e psicológica, de um bêbado: a dicção, o jeito, os gestos, o cheiro, as conversas, tudo! E, definitivamente, não pretende voltar a ser assim novamente.
"7 pra mim, 0 pra eles". Repete alto em pensamento em frente ao espelho, olhando-se fundo nos próprios olhos, quando vai sozinha ao banheiro. A confiança aumenta cada vez mais e ela está quase eufórica, porém cansada, afinal, aguentar bêbados estando sóbria, definitivamente não é tarefa pra qualquer um!
Pela primeira vez, Lia enxerga de fora, sóbria e inteira, a transformação interna e externa, física e psicológica, de um bêbado: a dicção, o jeito, os gestos, o cheiro, as conversas, tudo! E, definitivamente, não pretende voltar a ser assim novamente.
"7 pra mim, 0 pra eles". Repete alto em pensamento em frente ao espelho, olhando-se fundo nos próprios olhos, quando vai sozinha ao banheiro. A confiança aumenta cada vez mais e ela está quase eufórica, porém cansada, afinal, aguentar bêbados estando sóbria, definitivamente não é tarefa pra qualquer um!
Fora o álcool, esteve em contato com pó na sua frente também. Duas buxas gordas, brancas, purinhas [a legítima "essa é da boa", se fosse há pelo menos um mês atrás], sendo abertas e cheiradas pelos amigos, literalmente, em frente ao seu próprio nariz!
Naquele momento, voa um turbilhão de coisas pela sua cabeça, Lia pôde pensar mais racionalmente do que nunca, e acima de tudo, em sã consciência [essa altura do campeonato, ela já se sentia no topo: "10 pra mim 0 pra eles]:
Naquele momento, voa um turbilhão de coisas pela sua cabeça, Lia pôde pensar mais racionalmente do que nunca, e acima de tudo, em sã consciência [essa altura do campeonato, ela já se sentia no topo: "10 pra mim 0 pra eles]:
Mas que merda de vida é essa, porra?!?!?!
Depois de reparar nos outros, em torno de três litros de cerveja por pessoa [Lia que sempre bebeu até mais do que isso, em torno de uns cinco litros por noite ou mais], que desencadearam uma vontade avassaladora de dar um teco, ela olha pra trás e pensa:
"Não, eu não quero isso pra mim!" Fica tão fascinada , eufórica e ao mesmo tempo enjoada, com tanta informação nova, que assim que chega em casa [sóbria e não caindo pelos cantos como sempre foi do seu feitio, ao longo de anos], escreve no improviso em um pequeno caderno de anotações, onde anota dia após dia, suas vitórias e dificuldades:
"A anestesia alheia é visível, as pessoas precisam desesperadamente se alienar p/ o mundo, ficarem cegas pra vida, pelo menos que por um instante... aquele momento ali, com a ajuda do pó e do álcool, quando é possivel esquecer de tudo, quase que magicamente, e depois é claro, sofrer com a recompensa terrível, da ressaca do dia seguinte, a depressão pós pó, e sem contar, as enormes oscilações emocionais violentas que o álcool por si só provoca. Com o plus da cruza com o pó, a montanha-russa é mais intensa ainda... todo "bom viciado", adora testar os próprios limites, adora experimentar toda droga e ressaca do mundo, mas ironicamente, morre de medo de experimentar tentar mudar."
"Não, eu não quero isso pra mim!" Fica tão fascinada , eufórica e ao mesmo tempo enjoada, com tanta informação nova, que assim que chega em casa [sóbria e não caindo pelos cantos como sempre foi do seu feitio, ao longo de anos], escreve no improviso em um pequeno caderno de anotações, onde anota dia após dia, suas vitórias e dificuldades:
"A anestesia alheia é visível, as pessoas precisam desesperadamente se alienar p/ o mundo, ficarem cegas pra vida, pelo menos que por um instante... aquele momento ali, com a ajuda do pó e do álcool, quando é possivel esquecer de tudo, quase que magicamente, e depois é claro, sofrer com a recompensa terrível, da ressaca do dia seguinte, a depressão pós pó, e sem contar, as enormes oscilações emocionais violentas que o álcool por si só provoca. Com o plus da cruza com o pó, a montanha-russa é mais intensa ainda... todo "bom viciado", adora testar os próprios limites, adora experimentar toda droga e ressaca do mundo, mas ironicamente, morre de medo de experimentar tentar mudar."
E assim segue Lia hoje, com exatos 15 dias de sobriedade, sem ter ainda os "tais resultados supostamente incríveis [que ex adictos tanto enchem a boca pra falar] que a vida traz, após parar com o álcool", porém cheia de orgulho em si mesma, por saber que sim, ela pode ser mais forte que o álcool e sim, passar por cima dele.
Basta ter um propósito e determinação. E isso, Lia tem de sobra.
Basta ter um propósito e determinação. E isso, Lia tem de sobra.
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
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